Basílica de São Clemente em Roma, 3 camadas secretas e iniciáticas por descobrir

A Basílica de São Clemente

Tempo, fé e matéria viva – os elementos de terra, pedra e água.

Há lugares Turélicos em Roma que visitar não chega, é preciso descê-los, atravessar as várias camadas.

A Basílica de São Clemente de Latrão é um desses lugares, únicos. À superfície, apresenta-se como uma igreja de harmonia bizantina, construída por volta de 1100. Mas esta Basílica esconde muito mais, não é uma só. São três edifícios sobrepostos, erguidos em épocas diferentes, sem saberem uns dos outros. Um deles guardava cultos secretos e sacríficios.

São como camadas de consciência.

Claustro com colunata no pátio da Basílica de São Clemente, em Roma

Claustro da Basílica de São Clemente em Roma, estilo Bizantino em 3 níveis de descoberta.

O primeiro nível: a Basílica de São Clemente, visível

A igreja atual, de estilo bizantino-românico, dedicada ao Papa São Clemente I, acolhe que a visita com luz, mosaicos dourados e ordem. É o lugar da fé institucionalizada, já aceite, já assumida.

Mas São Clemente guarda vários segredos, segredos Turélicos.

O segundo nível: a Basílica escondida

Descendo, entramos numa basílica do século IV, construída sobre a casa dum senador romano.

Antes de haver igrejas públicas, havia igrejas domésticas. Espaços privados, discretos, onde o cristianismo vivia em silência, num império que o perseguia. Aqui a fé sussurrava-se. procalmar poderia ter consequências graves para quem a seguia.

Uma parte desta casa pertenceu, segundo a tradição, a Tito Flávio Clemente, senador romano convertido ao cristianismo, cujo espaço terá servido para reuniões clandestinas no séc. I.

O terceiro nível: Mitra, Nero e a água

O caminho continua, e aparecem degraus de pedra, que descem para um espaço que parece amplo. O som da água a correr com força, em rego, como se tivesse socalcos, é agora bem alto, constante. O chão está seco, com a iluminação difusa no novo nível não se vê água em nenhum lado. O som parece misterioso, mas domina o espaço na semi obsuridade.

Durante séculos estes níveis estiveram submersos. Quando foram descobertos revelaram:

  • Estruturas da Roma Republicana, destruídas no Grande Incêndio de 64 d.c., no tempo de Nero
  • Antigos armazéns
  • E um dos mitreus mais bem preservados de Roma.

O mitreu era um santuário dedicado ao culto secreto de Mitra – uma religião iniciática romana, centrada em rituais simbólicos como o sacríficio do touro.

Vista do Mitreu de São Clemente, com o altar e bancos laterais, no subsolo da basílica em Roma

Altar de Mithras, bancos laterais, espaço do culto iniciático no subsolo da Basílica de São Clemente em Roma.

Não se entra no Mitreu, podemos observá-lo através de grades. A luz no interior é difusa, mas conseguimos distinguir:

  • bancos laterais, destinados aos banquetes rituais
  • um altar central, alto mas não muito largo,aspeto sólido e robusto, com a imagem de Mitra

Passámos vários níveis, temos o mesmo subsolo, em camadas diferentes, e religiões opostas, ambas com um certo ocultismo, na altura em que eram praticadas neste local.

A água como memória viva Turélica

A água corre em socalcos, mais à frente num canto do espaço, aparece uma grelha de metal no chão, há iluminação e vê-se água corrente, com força surpreendente num rego delimitado por pedra. Surpreende porque foi canalizada quando a primeira estrutura foi construída, talvez há dois milénios atrás.

O que era aquela água, porque corria ali? Deixa um impacto sensorial, fresco, enquanto se avança para a escola do Mitreu noutra divisão e espaços que provavelmente teriam sido de armazenagem de alimentos.

São Cirilo – Linguagem como Ponte

É nesta Basílica que está sepultado São Cirilo, missionário e intelectual do século IX, cocriador do alfabeto glagolítico, que serviu para traduzir a Bíblia para as línguas eslavas e percursor do cirílico, o alfabeto que hoje permanece na Rússia, por exemplo.

São Cirilo nasceu em Tessalónica (826/827) e faleceu em Roma a 14 de fevereiro de 869. E teve uma vida intensa, foi uma figura de travessia e de coragem:

  • Viveu entre o Oriente e o Ocidente
  • Entre a fé e a linguagem
  • Entre a cultura e a espiritualidade
  • Viveu sem telemóveis, sem TV e sem rádio, mas a sua influência ficou até hoje.

A sua presença aqui é coerente com um espaço que integrou tanta vivência humana e tantas questões existenciais. Cultos gregários, rituais que conectam o homem a algo maior do que ele, desejo de conexão com o universo.

Uma experiência sensorial em várias camadas

A Basílica de São Clemente é um mapa vertical do humano.

  • Em cima a fé assumida
  • No meio, a fé escondida
  • Em baixo, o mito, o medo e a água

E nada foi efetivamente apagado ao longo dos séculos, tudo permanece. Há lugares onde não se sobre iluminado, este lugar nos traz não leva a descobertas de ruptura, mas leva-nos à integração de quase dois mil anos de religião e fé.

Porque é Turélico e porque se tornou uma referência?

São Clemente oferece estrutura, estrutura de fé, de culto, de religião e de conexão humana ao invisível que atravessa épocas.

O acesso aos níveis subterrâneos da basílica requer bilhete específico. Horários e informações atualizadas estão disponíveis no site oficial da Basílica de São Clemente.

Bilhete Basílica de São Clemente

No Turélico, este lugar não é uma experiência de travessia por camadas, uma descida simbólica pelo tempo, pela fé e pelas estruturas que permanecem sob a superfície.

Experiência de travessia por camadas

Ligação Turélico: Este artigo pertence à camada Descer e liga-se diretamente ao Eixo Roma -> Malta -> Jerusalém

 

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